segunda-feira, 27 de abril de 2015

Crônicas - Dinâmicas de um velório



Eu nunca havia presenciado um velório. Nem um enterro. Nem visto uma pessoa sem vida.

Acontece que toda essa incapacidade de lidar com a morte foi resolvida muito rapidamente com a morte de um ente [muito] querido. Não houve escolha. Não houve tentativa e erro. Só aconteceu.

Essa inexperiência me fez “visitar” esse acontecimento com olhos e ouvidos muito observadores de alguém que está vendo e ouvindo tudo pela primeira vez. Tudo chamava minha atenção e esses rituais me preencheram de uma forma que eu não consigo mais reverter.

Esse, que foi o pior dia da minha vida, foi um dia de lições práticas, técnicas, emocionais, espirituais e filosóficas. Lições que vou carregar no lombo como um conhecimento de causa que agora eu fico não exatamente feliz, mas talvez aliviada por finalmente compreender. É como deixar de ser leigo em um assunto. É como abrir a caixa dos mistérios. É como finalmente conhecer um novo colega de quarto. Abraçar uma emoção que você sabe que vai ficar ao seu lado por muito tempo.

Essas são algumas impressões que me tomaram de assalto nesse dia e me vêm à cabeça desde então:

Não há nada de macabro num velório. Aquela sensação de mau agouro e medo de filme terror não passa nem perto do clima de um velório. Predominam a tristeza e o cansaço. A matéria da pessoa que já se foi fica ali deitada, quieta, imóvel, alheia a todo aquele choro, àquela reza e consolação.

Paira uma sensação de invasão de privacidade, de violação do direito de descanso da vítima que fica ali sendo importunada no leito do seu descanso eterno.

As pessoas fazem as mesmas perguntas. E você tem que responder a mesma coisa pra todas elas. E essa conversa vem acompanhada daquela bendita frase

como você está?

E quando você, na verdade, quer dizer

 “já chega, deu ruim pra mim, não aguento mais”,

você na verdade faz aquela cara de

tô tentando seguir em frente”.

E não é pra enganar ninguém além de si mesmo. É aquela velha história de “as palavras têm poder”. E dizer como se quer estar, significa estar tentando. Faz parte do processo.

            É preciso fazer compras pro velório. Por uma razão muito prática: as pessoas comem e bebem no velório. Muita gente vem de longe, passa a noite ou o dia. E tem que ter comida e bebida pra alimentar o povo. Eu orientei a pessoa que foi fazer as compras

traz pão, queijo, presunto, bolo, biscoito, chá gelado, vários sucos... pó de café tem em casa. E também traz bastante copo descartável e guardanapo”.

E tem que ter café com e sem açúcar. Num dia de calor intenso, uma compra massiva de garrafas de água mineral foi o que salvou todos os presentes.

            Você serve muita água no velório.

Traz água pra fulano!”,

Pega um copo d’água pra mãe de fulana!

Busca um copo d’água que ela tá passando mal”,

Fulano, ‘cê veio debaixo do sol, senta aqui e toma um copo d’água”.

O velório é basicamente um momento de hidratação coletiva. Você serve água, água e mais água. E quando acaba de servir, tem que começar a servir de novo.

A casa fica totalmente tomada de pessoas. Sala, cozinha, sala de jantar, quintal da frente, quintal de trás e por aí vai. As pessoas se aglomeram em grupos de conhecidos. Ficam as pessoas da escola num canto. As pessoas do trabalho, em outro. Os vizinhos ficam de um lado. Os familiares mais distantes ficam de outro.

É uma ocasião na qual gente que não se vê há muito tempo tem a chance de se reencontrar.

Fulana casou, sabia?”,

O filho de fulano já tá com cinco anos!”.

Eu me formei na faculdade tem dois meses”,

Nossa, não te vejo desde o enterro de ciclano”.

Deve ter gente que se conheceu em velório e só se encontra em velório.

As pessoas riem no velório. Pode ser aquele risinho pelo reencontro com os “sumidos”, ou pode ser algum causo que alguém resolveu contar. Afinal, a situação vai varando noite adentro e tem que ter assunto. Pode ser aquele choro misturado com riso também, de tristeza misturada com memórias boas do tipo

ele era um bom garoto!”.

As pessoas são muito mais consoladoras com os velhos. Os visitantes quase sempre chegam muito preocupados com os mais velhos da família. São abraços apertadíssimos, pêsames deprimidíssimos e por aí vai. Pros jovens sobra um tapinha no ombro e uma ordem:

Você tem que ser forte!”.

Fiquei me perguntando se eu tinha a opção de responder

Não, hoje não tô a fim de ser forte, não! Vou me jogar no chão e começar a gritar!”.

E essas mesmas pessoas te bombardeiam com aquelas perguntas de quem está querendo ajudar:

Sua mãe já comeu?”,

Tua avó já tomou o remédio da pressão?”,

Mas você vai dar café com açúcar pra ela? Ela não é diabética?”,

Cuida da sua família tá? Fica com eles”.

Mais uma vez pensei nas consequências de responder

Poxa, não posso ficar não. Tô com meu Riocard aqui e vou pegar um trem pra Japeri. Pra dar um passeio. Se você tivesse me avisado antes que era pra eu ficar, né? Aí eu teria me programado! Mas você só falou agora! Como é que eu ia saber?”.

E te ocorre aquele pensamento sobre as visitas

Graças a Deus existem essas pessoas. E graças a Deus elas estão aqui. E nós não estamos sozinhos”.

Você vive aqueles momentos em que acha que nunca mais vai conseguir chorar de novo. Secou, acabou. Dois minutos depois, o choro recomeça.

Você se promete que nunca mais vai rezar. Dois minutos depois tá rezando porque é o único jeito de sobreviver. É tão vital quanto respirar. Especialmente porque é essencial saber que você não está entregando aquele ser amado pro fim de tudo, mas pra vida eterna. E que aquilo é só um “até breve”.

Muitas pessoas chegam, mas só aquelas que estão ali por você te fazem se sentir confortável pra desabar por alguns minutos. E, vejam bem, eu disse DESABAR mesmo, não desabafar. Tem aqueles que vão pelos seus pais, pelos seus tios, ou pelos seus avós. Mas aqueles que vão por você fazem uma diferença no modo como você está agindo.

Os lugares sentados são disputados. E as pessoas querem ficar perto do caixão, vendo quem entra e quem sai.

Tem gente que não fala coisa com coisa no velório, age como louco.

Tem gente que vai, mas não chega perto. E faz isso por vários motivos: tem vergonha, não gosta de ver, não sabe o que dizer, fica com medo de incomodar. É uma variedade imensa de motivações. Justas.

            Você pode colocar alguma coisa no caixão pra ser enterrada junto com a pessoa. Um terço, por exemplo.

Você fica suspirando e gemendo involuntariamente quase o tempo inteiro. Dói.

Tem vários momentos pra rezar durante o velório. É o famoso ato de “encomendar” a alma. E todo mundo reza e canta junto. Você tem que estar em dia com as letras das músicas e orações pra acompanhar o coro.

“Noite Traiçoeira” está entre as mais cantadas.

É preciso decidir se você quer uma bíblia ou um crucifixo adornando o caixão. Aí você reflete

Só tem opções católicas?”

Tem gente que só vai ao velório. Tem gente que só vai ao enterro. Tem gente que vai aos dois.

O enterro passa muito rápido.

As pessoas batem palmas quando o caixão tá descendo, pra homanagear o falecido.

Você aprende fatos novos.

Os ossos do seu avô estão naquela caixa ali”.

Carregar o caixão é um sinal de respeito. E quando um menino carrega um caixão, ele vira um homem.

Quanto mais prestígio a pessoa tem, mais coroas de flores ela ganha.

Aquele último momento quando você joga a flor lá dentro, em cima do caixão, é a última chance pra despedida.

agora é pra valer. Espero não ter esquecido de te dizer nada. Não esqueça de mim. E eu juro que também não vou esquecer de você”.

            Depois que fecham a tampa do túmulo, todas as coroas de flores são colocadas ali em cima.

            Já se anuncia a missa de sétimo dia ali mesmo.

            E o velório, o enterro e a dor se repetem todo dia na sua cabeça toda vez que alguém pergunta.


como você está?”.

11 comentários:

  1. Que texto lindo, de uma maturidade e sensibilidade incríveis. <3

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    1. Como dá like em comentário no blógui?!
      Texto lindo, comentário lindo! :)

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  2. :') ótimo texto sobre uma parte fundamental da vida.

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  3. É importante ter pessoas ao nosso lado nesses momentos!
    Lindo texto

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  4. Nossa! Vc conseguiu descrever exatamente como é. Parece que eu senti o cheiro daquele dia...Se isso fosse possível! Maravilhoso o texto minha filha! De uma sensibilidade ímpar!

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