segunda-feira, 4 de maio de 2015

O medo de falhar




Quando eu era criança, sabia muito bem quem eu era. E sabia onde eu me incluía no mundo em relação à minha categoria socioeconômica.

Eu sabia que eu não tinha dinheiro pra ir à Disney como alguns vizinhos, ou para, pasmem, ser rica ao ponto de ter plano de saúde! Eu achava que plano de saúde era uma coisa totalmente de milionários! haha

Eu também sabia que algumas das crianças que estudavam na mesma escola que eu (escola pública municipal) viviam numa condição muito pior. Eu tinha um material escolar mais completo que o delas, e podia me dar o luxo não comer a merenda na escola (que eu detestava) porque teria comida em casa.

E, assim, sabendo exatamente onde eu me inseria no mundo, eu ainda achava possível sonhar. Sonhar com um amanhã melhor, com quem eu poderia ser, com o que eu poderia fazer, as coisas que eu poderia ter. E achava que só dependia do meu esforço pra desfazer aquelas amarras e mudar pra posição que eu quisesse.

Eu já quis ser astrônoma, meteorologista, arquiteta e jornalista. E ouvi muitas vezes muita gente dizendo que eu não ia conseguir. Independentemente disso, eu continuei acreditando. Meu sonho mudava, meus interesses se transformavam, mas eu tinha uma certeza absurda de que eu ia conseguir tudo o que eu quisesse.

Hoje, eu fico me perguntando pra onde foi aquela certeza, aquela confiança total que eu tinha em mim. Que eu tinha no destino. No futuro.

Cadê?

O medo de falhar se apossou de mim totalmente.

Quanto mais eu envelheço, mais eu fico ciente de que vou falhar. E me travo com isso.

O vestibular, por exemplo, foi o inferno na terra. Eu não só achava, como tinha CERTEZA de que eu não ia passar.

Quando eu consegui, acho que fiquei muito mais desorientada do que feliz, fiquei em choque. Demorei um tempinho pra “comemorar” a ocasião.

E a felicidade, depois que eu já tinha me acostumado com a idéia, durou exatamente cinco minutos:

 “EU PASSEI!”

5 minutos depois:

“eu sou uma burra...”

E o porquê disso? Bom, eu simplesmente não conseguia parar de me comparar com os outros. Parecia que todo mundo lá (na faculdade) já conhecia todos os países do mundo, já falava todas as línguas, já tinha tido todo tipo de experiência que eu nem sonhava que gente de 18 anos poderia ter!

Eu,que nunca nem tinha andado de avião, não tinha nem TV a cabo em casa, não bebia, não dirigia nem nunca tinha feito nada de interessante, me senti um lixo.

No dia em que nos apresentamos aos colegas de turma, eu lembro que quando acabei de falar alguém perguntou “é só isso? Você nunca fez nada importante?”.

Isso me quebrou, me esbofeteou e me deixou totalmente assustada.

Depois de ter passado naquela maldita prova, uma comprovação oficial de que eu merecia estar ali naquela maldita universidade, eu não parava de pensar

“o que é que eu tô fazendo aqui? Eu não deveria estar aqui...”

É que mesmo depois de tantos anos, aquelas categorias que eu observava quando era criança, continuavam intransponíveis ali, e em todo lugar.

As crianças da merenda nem chegaram a entrar na faculdade. As do plano de saúde estavam lá perguntando se eu não tinha feito nada de importante na minha vida.

E eu, ali no meio, perdendo toda a fé no meu destino.

E esse sentimento perdura e se torna cada vez mais uma parte de mim.

E não é puro derrotismo, não! É que fica muito difícil manter a confiança quando você vê que, no fundo, pouca coisa muda. Que quem teve as melhores oportunidades desde sempre, vai ter um futuro melhor e ponto final.

Assim como o ingresso na faculdade foi a “nota de corte” pras crianças da merenda, eu vivo com esse medo absurdo de ver quando vai chegar a MINHA nota de corte.


Tenho medo de ouvir a vida me dizer “daqui você não passa”. E tenho medo de já ter chegado nesse lugar. 

E tenho muito medo de quebrar a cabeça mil vezes por não querer entender ou acatar essa realidade.

E o pior, medo de finalmente conseguir avançar e persistir com essa sensação de "eu não deveria estar aqui".

Mas, como a vida é um experimento empírico, acho que só posso descobrir se continuar a tentar. 

Vou ouvir mil nãos até ouvir um sim. 

Vou dar mil passos pra trás até dar um pra frente. 

E ter um pouquinho de fé. Eu devo isso àquela criança.

6 comentários:

  1. Laís, quase chorei quando li o seu texto! Nunca deixa que os outros nãos e que as outras pessoas te impessam de fazer nada que você queira fazer! Você ainda vai conquistar muito nessa vida - vai por mim! E tenha fé que, como vc mesma disse, seu dia vai chegar e vai ter muita gente comemorando contigo! Saudades amiga!

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  2. Respostas
    1. Carol, você que é incrível!! Obrigada pelo comentário! =)

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